Quando penso em arquitetura atemporal, eu penso em uma casa que atravessa o tempo, que respeita as proporções e aposta na verdade dos materiais.
Esse é um tema que me interessa porque algumas das minhas principais referências de interiores trabalham justamente nesse equilíbrio. O Studio McGee parte de princípios clássicos e tradicionais reinterpretados de maneira contemporânea. Amber Lewis trabalha com um repertório mais eclético, misturando peças vintage, materiais naturais e elementos que dão aos interiores a sensação de terem sido construídos em camadas ao longo do tempo.
São linguagens diferentes, mas existe algo em comum entre elas que também faz muito sentido para mim: uma casa não precisa parecer nova para ser atual.
01Atemporal não significa neutro
Talvez essa seja uma das associações que mais se questiona.
Madeira, pedra natural, paredes claras e tecidos neutros podem fazer parte de um projeto atemporal. Mas repetir essa combinação não torna automaticamente um interior atemporal.
Da mesma forma, usar cor, papel de parede, uma pedra expressiva ou uma marcenaria marcante não faz com que um projeto seja necessariamente datado.
A personalidade também pode atravessar o tempo.
Uma casa pode ter cor, estampas, objetos marcantes e diferentes referências. O que importa é que essas escolhas tenham relação com a arquitetura e, principalmente, com quem vive ali.
É por isso que gosto de interiores construídos em camadas.
Uma peça contemporânea ao lado de outra antiga. Um móvel herdado. Uma obra escolhida porque significa alguma coisa para aquela família. Livros, fotografias, objetos trazidos de viagens. Materiais e texturas que não precisam pertencer exatamente ao mesmo estilo.
Uma casa não precisa parecer que tudo foi escolhido no mesmo dia.


02A base precisa ser boa antes de ser bonita
Antes da decoração, existe a arquitetura.
Uma planta que funciona, uma circulação bem resolvida, boas proporções, iluminação natural, marcenaria pensada para a rotina e uma relação coerente entre os ambientes são decisões que dificilmente perdem importância porque uma tendência passou.
Elas talvez sejam menos imediatas em uma fotografia, mas são percebidas todos os dias por quem mora ali.
E acho que existe uma diferença importante entre projetar uma casa para ser fotografada e projetar uma casa para ser vivida.
A iluminação também faz parte dessa construção.
Não penso apenas em escolher uma luminária bonita ou definir uma temperatura de cor. Gosto de pensar em camadas de iluminação: a luz natural durante o dia, uma iluminação geral quando necessária, luzes mais pontuais para leitura ou trabalho e pontos de luz mais baixos e indiretos que transformam a atmosfera da casa à noite.
Nem todo ambiente precisa estar iluminado da mesma maneira o tempo inteiro.
Essas camadas criam profundidade e permitem que a casa responda a diferentes momentos da vida cotidiana.
Por isso, antes de pensar em uma cor, em um revestimento ou em uma peça específica, gosto de entender quem vai viver naquele espaço. Como é a rotina? Como essas pessoas recebem? O que já possuem e querem preservar? O que precisa funcionar melhor? Como querem se sentir dentro de casa? Que momentos especiais guardam no coração? Quererem mudar algum hábito?


03Uma casa com história envelhece diferente
Acho que um dos riscos de projetar apenas a partir de referências visuais é começar a preencher a casa com coisas que não significam nada.
Um quadro porque aquela parede precisava de um quadro. Um objeto porque faltava alguma coisa sobre a mesa. Uma peça porque apareceu em muitas referências.
Eu prefiro que uma casa possa ser construída aos poucos.
Nem toda parede precisa nascer preenchida.
Uma obra escolhida porque realmente despertou alguma coisa em quem mora ali pode permanecer por décadas. Um objeto herdado talvez nunca aparecesse em um moodboard, mas pode carregar muito mais significado do que algo comprado simplesmente para completar uma composição.
Essas camadas tornam uma casa particular.
E acredito que essa particularidade também contribui para sua permanência, porque aquilo que está ligado à nossa história não perde o sentido simplesmente porque uma tendência mudou.


04Materiais verdadeiros e o contato com a realidade
Existe ainda outra dimensão da atemporalidade que considero importante: a verdade dos materiais.
Gosto de madeira que seja percebida como madeira, pedra como pedra, tijolo como tijolo.
Isso não significa que nunca exista espaço para materiais industrializados ou soluções que reproduzam determinadas aparências. Custo, manutenção, aplicação e inúmeras questões práticas fazem parte de um projeto real.
Mas, sempre que possível, prefiro não construir um ambiente inteiro a partir de materiais tentando parecer aquilo que não são.
Uma cerâmica que imita madeira, outro revestimento que imita pedra, uma superfície que imita tijolo, uma chapa que reproduz algum outro material — quando essas imitações começam a se acumular, existe uma perda de autenticidade.
E muitas vezes é justamente aí que o tempo pesa mais.
O que hoje parece uma novidade tecnológica pode revelar muito claramente, alguns anos depois, o período em que foi escolhido.
Os materiais naturais também nos lembram que o tempo faz parte das coisas.
A madeira muda. Alguns metais desenvolvem pátina. A pedra tem variações. Tecidos naturais ganham marcas do uso.

05Trazer a natureza para perto
Essa relação com o verdadeiro também aparece na presença da natureza dentro e ao redor da casa.
Sempre que a arquitetura permite, gosto da ideia de direcionar um ambiente para um jardim, enquadrar uma árvore, valorizar a entrada de luz natural ou criar uma relação mais próxima entre interior e exterior.
Dentro de casa, plantas e flores naturais têm uma qualidade que uma reprodução artificial simplesmente não consegue ter.
E não é porque elas permanecem perfeitas.
É justamente o contrário.
Uma planta cresce, muda de direção buscando luz, ganha uma folha nova, perde outra, às vezes amarela. Flores naturais duram alguns dias e depois precisam ser substituídas.
Existe vida acontecendo ali.
Para mim, esse contato cotidiano com a natureza também nos aproxima da realidade e da própria criação de Deus. Existe algo de contemplativo em perceber a luz mudar durante o dia, acompanhar uma planta crescer ou simplesmente ter uma janela voltada para um jardim.
A casa não precisa nos afastar do mundo natural. Ela pode nos ajudar a percebê-lo melhor.
06Eu acompanho tendências e acho importante acompanhá-las.
Elas ajudam a compreender o que está surgindo no mercado, novos materiais, soluções, tecnologias e até mudanças na forma como as pessoas estão vivendo.
Tendência pode ser referência. O que eu evitaria é transformá-la em diretriz de projeto.
Quando praticamente todas as escolhas de uma casa vêm daquilo que está em evidência naquele momento — a mesma paleta, o mesmo revestimento, a mesma marcenaria, a mesma luminária, os mesmos objetos — o resultado pode parecer extremamente atual hoje.
Mas tendências, por definição, mudam.
Aquilo que hoje é novidade e recebe atenção provavelmente não terá o mesmo lugar daqui a dez anos.
E é justamente quando uma casa depende demais dessas escolhas que começamos a conseguir identificar imediatamente a época em que ela foi projetada.
Não porque envelhecer seja um problema. Toda arquitetura pertence ao seu tempo.
O problema é quando, depois que a tendência perde força, não sobra muito além dela.
Por isso, gosto de usar tendências para observar, pesquisar e ampliar repertório — não para determinar um projeto inteiro.
A pergunta continua sendo:
essa escolha faz sentido para esta casa e para quem vai viver nela ou estamos fazendo isso apenas porque é o que está sendo mais usado agora?
07Uma casa precisa ter espaço para continuar acontecendo
Talvez essa seja, para mim, a parte mais bonita da arquitetura residencial.
A entrega do projeto não é o final da casa.
Depois vêm novos objetos, viagens, livros, obras, mudanças de rotina, filhos, móveis que são substituídos e coisas que simplesmente encontram seu lugar com o tempo.
Por isso, não acredito que um interior precise permanecer intacto para ser considerado atemporal.
Pelo contrário.
Uma boa base permite que ele mude.
No fim, arquitetura atemporal não é sobre tentar prever o que nunca sairá de moda. É sobre criar espaços em que as decisões mais importantes tenham razões mais profundas do que aquilo que está em evidência naquele momento.
O que permanece não é necessariamente o que nunca muda. É aquilo que consegue mudar sem perder a sua essência. Atemporalidade não deveria significar apenas como o projeto vai parecer daqui a dez anos, mas também como ele vai viver esses dez anos.
